Fumo desde… ah, desde sempre. Antigamente eu dava uma paradinha, ficava um ano sem fumar e marcava data para voltar. De uns tempos pra cá eu só paro quando fico gripado, pois é nessa situação que o cigarro perde aquele gosto delicioso que só os fumantes percebem.
Alguns ex-fumantes também sabem o quanto é bom aquele gostinho de cinzeiro… Mas por causa dessa mania que é um câncer da sociedade, a mania de ser politicamente correto, se tornaram os piores inimigos daquele velho companheiro fiel de todas as horas, o cigarro.
Sempre questionei se eu era viciado em cigarro ou ele em mim. Pensando nisso, tenho a tendência a afirmar que é ele que é viciado em mim e não eu nele. Cigarro é fiel, leal, jamais te abandona nos momentos ruins e também nos bons, além disso, no meu caso, ele está sempre por perto. Tenho um maço no carro, um em casa, outro no escritório e em todos esses lugares, alguns de reserva, ou seja, ele não me larga.
Aí fiquei gripado há coisa de um mês e meio atrás. Perdi completamente o olfato e com ele o gosto pelo cigarro. Pouco mais de duas semanas e nada de eu ter vontade de fumar. Fiz um esforço grande numa noite e nada, eu não conseguia mais tocar num cigarro.
Estava me tornando um ex-fumante. Um cara chato que não suportava mais aquele cheiro delicioso de fumaça tóxica. Não queria mais ficar com gosto de cinzeiro na boca. Estava me tornando um cara insuportável e fraco, sem nenhuma força de vontade.
Tentei novamente voltar a fumar e nada. Não havia jeito de conseguir. Fui buscar lá no meu íntimo a força de vontade que precisava para reatar meu relacionamento com meu inseparável amigo de toda a vida e nada. Eu fiquei triste, deprimido, com a autoestima lá embaixo. Sempre consegui fazer tudo o que me propus, mas estava falhando.
De onde tirar a força necessária para voltar a fumar? Não sabia como até que… Acordei decidido, olhei no espelho do meu banheiro e disse em voz alta:
- MM, você é um homem ou um rato? Como pode ser tão fraco? Como pode abandonar uma relação de anos assim, por causa de uma gripe que nem suína era?
Vesti uma roupa e no caminho da padaria onde tomo café da manhã fui repetindo a frase como se fosse um mantra:
- Você precisa ter força de vontade… Você precisa ter força de vontade…
Lembrei-me então de outra vez em que havia parado de fumar. Eu ficara um ano sem tocar num cigarro e também havia sido bem difícil retomar meu prazer. Tive que fazer força para entender que o cigarro era viciado em mim e não havia nada que poderia fazer para curá-lo.
Procurei clínicas, remédios e nada. Só encontrei tratamentos para pessoas viciadas em cigarro e não para cigarros viciados em pessoas.
Naquela época eu fumava uma marca e depois que parei decidi, se fosse voltar, que fumaria outra. Deu certo, voltei a fumar. Ora, se deu certo uma vez, por que não repetir a mesma fórmula? Foi o que decidi naquela linda manhã chuvosa de abril. Era dia primeiro, sim, primeiro de abril, dia da mentira.
Eu, de fato, vivia numa mentira, achava mesmo que o cigarro tinha se curado e não era mais viciado em mim. Ledo engano, ele ainda precisava de mim. Comprei então a mesma marca que tanto me ajudou no passado e pronto, tudo voltou ao normal.
Graças à Deus. Graças a minha super força de vontade eu consegui voltar a fumar. Por um instante achei que era um fraco, mas agora tenho certeza, eu posso tudo! A felicidade voltou.
MM





